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\”Ninguém Pode Saber\” é um filme. Mas a história real foi muito mais brutal.

Em 1988, o Japão foi sacudido por um caso que chocou o mundo inteiro. Cinco crianças. Um apartamento. Nove meses completamente sozinhas. Duas não sobreviveriam. Este é o Caso de Abandono de Crianças de Sugamo — a tragédia real que inspirou o filme de Hirokazu Kore-eda.

Quem eram elas?

Todas as crianças tinham pais diferentes e foram referidas publicamente apenas como Criança A, B, C, D e E — seus verdadeiros nomes jamais foram revelados.

  • Criança A — menino, nascido em 1973
  • Criança B — menina, nascida em 1981
  • Criança C — faleceu logo após o nascimento, em 1984
  • Criança D — menina, nascida em 1985
  • Criança E — menina, nascida em 1986 (a mais nova)

Com exceção da Criança A, é provável que os demais filhos não estivessem sequer registrados no registro civil. Nenhum deles frequentava a escola. Essas crianças, para o Estado japonês, simplesmente não existiam.

O dia em que tudo desmoronou

No outono de 1987, após conhecer um novo namorado, a mãe deixou a Criança A responsável pelos irmãos, entregando ao menino — então com 14 anos — o equivalente a US$ 350 para custear as despesas de todos. Ela disse que voltaria em breve.

Não voltou.

Os cinco filhos ficaram confinados no pequeno apartamento em Sugamo, no bairro de Toshima, Tóquio. Sem escola. Sem adultos. Sem qualquer proteção. A Criança A, ainda uma criança, tornava-se o único responsável pela sobrevivência dos irmãos.

O que Kore-eda não mostrou

O filme suavizou a realidade. O caso verdadeiro foi devastador.

O corpo da Criança C, que havia morrido logo após o nascimento em 1984, foi encontrado dentro do próprio apartamento quando as autoridades invadiram o local em julho de 1988. O bebê nunca havia sido enterrado.

Em 14 de abril de 1988, a caçula — a Criança E, então com apenas dois anos — foi agredida por amigos da Criança A e morreu em decorrência do ataque. Mesmo não tendo participado do crime, a Criança A ajudou um dos amigos a enterrar o corpo da irmã em um bosque em Chichibu.

As autoridades não encontraram o corpo da Criança E no apartamento — o paradeiro era desconhecido até que a própria Criança A revelou o que havia acontecido.

O dia em que o silêncio acabou

Em 17 de julho de 1988, alertado pelo proprietário do imóvel, oficiais de Sugamo invadiram o apartamento e encontraram três crianças gravemente desnutridas: a Criança A (14 anos), a Criança B (7 anos) e a Criança D (3 anos).

Sem água, sem luz, sem gás — todos cortados por falta de pagamento — as crianças sobreviviam basicamente com alimentos comprados em lojas de conveniência. Com a intensa cobertura da mídia, a mãe se entregou à polícia em 23 de julho. Seu testemunho revelou que as crianças estiveram sozinhas por cerca de nove meses, e que ela desconhecia o paradeiro da filha mais nova.

Dois dias depois, foi a Criança A quem contou, finalmente, o que havia acontecido com a irmã.

Justiça? Apenas no papel.

Em agosto de 1988, a mãe foi acusada de abandono infantil e condenada a três anos de prisão — pena suspensa por quatro anos. A Criança A foi indiciada por abandono de cadáver, mas em consideração às circunstâncias — uma criança que tentou proteger o que restava da família — foi encaminhado junto às irmãs para uma instituição de acolhimento.

Após cumprir a pena, a mãe recuperou a guarda das filhas menores. A Criança A, então maior de idade, não foi incluído nessa decisão.

Três anos foi tudo o que a Justiça japonesa considerou razoável pela morte de dois filhos e pelo abandono dos demais.

Em 2004, o diretor Hirokazu Kore-eda transformou essa tragédia em cinema — não para recontá-la fielmente, mas para garantir que o mundo nunca esquecesse que crianças invisíveis existem, e que o silêncio ao redor delas pode matar.